← Voltar ao blog

Durante mais de cinquenta anos, a acessibilidade teve um desenho só: a figura sentada na cadeira de rodas, quase sempre branca sobre azul. Está no estacionamento, no banheiro, na placa da rampa, no crachá do evento. Agora esse ícone virou tema de debate, e não é discussão de estilo. Muda a ideia de quem precisa de acessibilidade e do que essa palavra abrange.

Para quem produz eventos, isso não é assunto distante. A discussão chega na sinalização, no mapa do espaço, na comunicação visual de qualquer lugar que diga receber todo mundo.

De onde veio o símbolo que a gente conhece

O símbolo atual nasceu em 1968, criado pela designer dinamarquesa Susanne Koefoed. Uma pessoa sentada em cadeira de rodas, fundo azul. Por décadas ele fez um trabalho importante: colocou no mundo inteiro a ideia de que espaços precisam ser pensados para pessoas com deficiência.

Só que ele carregava um limite. Ao mostrar apenas a cadeira de rodas, acabou colando acessibilidade a um tipo só de deficiência, a mobilidade. Quem tem deficiência auditiva, visual, intelectual ou psicossocial ficava de fora daquela imagem, mesmo precisando de acesso todos os dias.

O que muda no símbolo novo

O novo Símbolo Internacional de Acessibilidade, formulado no âmbito da ONU em 2015, troca a cadeira de rodas por uma figura humana de braços abertos dentro de um círculo. A postura é ativa, não parada. A ideia é falar de autonomia e participação, não de uma barreira a contornar.

A diferença de desenho é fácil de ver:

O ponto principal não está no traço, e sim no conceito. O símbolo deixa de representar um equipamento e passa a representar a pessoa. Acessibilidade sai do lugar de "adaptação para um grupo" e vira condição de acesso para qualquer um.

No Brasil, a troca do símbolo foi vetada (por enquanto)

Aqui a história brasileira ganhou uma reviravolta. O Projeto de Lei nº 2.199/2022 foi convertido na Lei nº 15.459/2026, mas com um veto justamente no ponto principal.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou os trechos que ampliam a obrigatoriedade da sinalização de acessibilidade em locais públicos e privados. Vetou, porém, a troca do símbolo. Na prática, por enquanto, continua valendo a figura tradicional do cadeirante em fundo azul.

O Executivo deu dois motivos para o veto. O primeiro: a mudança do ícone não teria passado pela consulta prévia adequada às entidades que representam pessoas com deficiência, o que contraria a Convenção da ONU sobre o tema. O segundo: trocar de uma hora para outra um símbolo já consolidado poderia gerar confusão e criar novas barreiras de comunicação.

O que ainda pode acontecer no Congresso

Um veto presidencial não encerra o assunto. O trâmite segue um caminho previsto na Constituição:

Enquanto o Congresso não pautar e votar esse veto, o símbolo tradicional do cadeirante continua valendo para toda nova sinalização no Brasil.

Vale lembrar o tamanho do público em jogo. O Censo de 2022 do IBGE contou cerca de 18,6 milhões de pessoas com dois anos ou mais com algum tipo de deficiência no país. São pessoas que compram ingresso, vão a congressos, feiras, shows e eventos corporativos, e que muitas vezes ficam de fora por decisões que nem chegaram a pensar nelas.

Por que isso interessa a quem faz evento

Trocar a placa não torna nada acessível. Uma sinalização novinha em cima de um espaço cheio de barreiras é só uma placa bonita. E é aí que o debate do símbolo fica útil na prática.

Sair da cadeira de rodas para a figura de braços abertos é um convite para rever uma ideia antiga: a de que acessibilidade em evento se resolve com rampa e banheiro adaptado. Receber bem 18,6 milhões de pessoas pede atenção em mais de uma frente ao mesmo tempo.

A parte física é a mais lembrada: rampas, elevadores, piso regular, circulação larga, lugares reservados com boa visão e sanitários adaptados de verdade, não só sinalizados. Tem a parte sensorial e de comunicação, que o símbolo antigo escondia e o novo põe em evidência: intérprete de Libras, legenda, audiodescrição, materiais em outros formatos, contraste na sinalização, piso tátil. E tem a parte atitudinal, que nenhuma placa resolve: equipe treinada para receber e orientar pessoas com diferentes deficiências, sem constrangimento e sem paternalismo. Esse preparo de equipe vale para toda situação delicada, e já tratamos disso ao perguntar se a equipe do seu evento sabe lidar com assédio, violência ou racismo.

Qualquer um dos dois símbolos funciona como um lembrete visual de que acessibilidade é plural. Quem leva isso a sério assume, em público, um compromisso maior do que uma placa dava a entender.

Dois símbolos ao mesmo tempo: por que conhecer os dois

Esse é o ponto que mais interessa a quem organiza eventos hoje. Mesmo com o veto, muitas organizações, marcas e eventos já vinham adotando o símbolo da ONU, seja por considerá-lo mais representativo, seja porque a proposta era tratada como certa. O resultado é que o público circula vendo as duas figuras ao mesmo tempo.

Isso não precisa virar problema. As duas dizem a mesma coisa: aqui tem acessibilidade. Ajudar as pessoas a reconhecerem tanto o cadeirante quanto a figura de braços abertos evita justamente a confusão que o governo citou como razão do veto. Quanto mais gente entende os dois, menor a barreira de comunicação.

Para o seu evento, isso se traduz em duas atitudes simples. Na sinalização obrigatória, use o símbolo que está em vigor, o do cadeirante. Se quiser usar o símbolo da ONU em peças de comunicação, pode, desde que fique claro que os dois apontam para a mesma coisa. O que não vale é trocar um pelo outro sem contexto e deixar a pessoa na dúvida sobre onde está o acesso.

Como levar isso para o seu próximo evento

Se você está planejando um evento e quer se organizar, comece por pontos concretos:

Esse último ponto é onde a acessibilidade encontra a certificação. O EVER certifica eventos por critérios ambientais, sociais e de governança, e a acessibilidade está no centro da parte social. Usar bem o símbolo, seja qual for o vigente, é um gesto que importa. Comprovar que o evento é mesmo acessível é o que dá peso a esse gesto.

Um símbolo que cobra coerência

A discussão sobre trocar a cadeira de rodas pela figura de braços abertos diz uma coisa simples: acessibilidade é sobre pessoas, todas elas. Para quem organiza eventos, o recado independe do desfecho do veto. Não basta a placa na parede, seja qual símbolo estiver nela. O evento inteiro precisa estar à altura do que qualquer um dos dois desenhos promete.

O debate sobre o símbolo existe porque a nossa forma de entender inclusão amadureceu. Enquanto o Brasil decide qual figura vai usar, o que cada produtor pode decidir hoje é simples: fazer um evento acessível de verdade, não só sinalizado.